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Venezuela: O que vem a seguir
Análise da transição política da Venezuela, dos riscos e impactos nos mercados.

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Análise da transição política da Venezuela, dos riscos e impactos nos mercados.
A saída de Nicolás Maduro marca o início de uma transição na Venezuela, com elevada incerteza política e implicações relevantes para a energia e os mercados financeiros. Este relatório analisa os cenários à frente, os riscos para investidores e as possíveis trajetórias macroeconômicas.
No dia 3 de janeiro, as Forças Armadas dos Estados Unidos realizaram ataques na Venezuela, detendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, que foram levados sob custódia dos EUA. Em uma coletiva de imprensa, o presidente Trump afirmou que os Estados Unidos supervisionariam a Venezuela até que fosse possível organizar uma transição segura e adequada, com a governança interina ficando a cargo de altos funcionários norte-americanos.
No entanto, a natureza dessa transição permanece incerta. Embora os EUA pretendam administrar o processo, existe o risco de um vácuo de poder, já que muitos dos atores que se beneficiaram do sistema de Maduro podem resistir a mudanças que ameacem seus interesses.
Após a operação, foi noticiado que o secretário de Estado, Rubio, manteve comunicação com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, que agora assumiu a liderança do país e declarou que a Venezuela está pronta para defender seus interesses nacionais, ao mesmo tempo em que adota uma postura de desafio em relação aos Estados Unidos.
A situação permanece extremamente fluida, com conversas e negociações com a liderança chavista remanescente provavelmente em andamento. Após um período inicial de estabilização — durante o qual os EUA podem supervisionar o país de forma direta ou indireta — deverão surgir questões centrais relacionadas ao status constitucional e ao arcabouço institucional necessário para a restauração da democracia.
Anos de chavismo enfraqueceram severamente as estruturas institucionais da Venezuela. Publicamos recentemente um relatório intitulado Venezuela: Visualizando o dia depois de amanhã, em 20 de outubro de 2025. A principal prioridade do país é o setor petrolífero. Embora as reservas de petróleo da Venezuela estejam entre as maiores do mundo, a maior parte consiste em petróleo pesado e extra-pesado, cuja extração é tecnicamente complexa.
De forma mais ampla, a Venezuela apresenta um potencial significativo de recuperação econômica, uma vez que grande parte de sua capacidade produtiva anterior foi destruída. O prolongado isolamento do país e a crise econômica criaram inúmeras lacunas a serem preenchidas. A expectativa de normalização econômica pode incentivar parte dos cerca de oito milhões de venezuelanos que vivem no exterior a retornar, impulsionando ainda mais o investimento e o dinamismo econômico.
O principal canal de transmissão dos acontecimentos na Venezuela para os ativos financeiros globais ocorre por meio dos preços internacionais do petróleo. O presidente dos EUA, Trump, indicou que o embargo às exportações de petróleo continuará em vigor por enquanto. Como resultado, seguimos observando interrupções na produção e nas exportações de petróleo venezuelano.
Segundo a Reuters, as exportações estão paralisadas, pois as autoridades portuárias não receberam solicitações para autorizar a saída de navios já carregados. Uma recuperação significativa da produção venezuelana exigiria investimentos de capital substanciais após décadas de subinvestimento, e ainda não está claro quais empresas estariam dispostas a investir aos preços atuais do petróleo, considerando o ambiente político, de segurança e jurídico incerto.
Além disso, o petróleo venezuelano é predominantemente extra-pesado, altamente viscoso e com elevado teor de enxofre e metais, o que o torna menos valioso do que o petróleo leve e doce. Nos próximos 12 meses, não esperamos impacto relevante nos equilíbrios do mercado global. No entanto, caso o embargo dos EUA — que recentemente pressionou a produção e as exportações — seja suspenso, pode haver um aumento modesto da produção e das exportações até níveis anteriores ao embargo. Um crescimento mais expressivo, contudo, provavelmente levaria anos.
Até 2030, o mercado pode necessitar de petróleo adicional da Venezuela, diante do investimento global limitado em nova capacidade produtiva nos últimos anos e do crescimento contínuo da demanda mundial por petróleo.
Fora o impacto sobre os preços globais de energia, a Venezuela apresenta riscos de contágio praticamente insignificantes para os mercados emergentes por outros canais. Sua dívida soberana, em default há mais de oito anos, é negociada de forma idiossincrática, com correlação limitada com outras dívidas soberanas de mercados emergentes, e o mercado acionário venezuelano é praticamente inexistente.
O documento da Estratégia de Segurança Nacional de 2025 do presidente Trump destacou o surgimento de uma chamada “Doutrina Monroe 2.0” — uma versão moderna da Doutrina Monroe. A nova estratégia reafirma as Américas como uma esfera de influência dos EUA, fora do alcance da interferência de outras grandes potências. Em 2025, o envolvimento dos EUA na América Latina atingiu níveis não observados há 25 anos, com atuação ativa em países como Panamá, México, Brasil, Colômbia e Argentina. Os acontecimentos recentes na Venezuela parecem confirmar que essa doutrina está em vigor.
No cenário político regional, o impulso se afastou da chamada “onda rosa” de esquerda em direção a lideranças mais favoráveis ao mercado. El Salvador, Equador, Argentina, Bolívia e, mais recentemente, Chile lideram essa tendência. A transição política em curso na Venezuela, juntamente com eleições futuras na Colômbia, no Peru e no Brasil, pode reforçar ainda mais esse movimento.
Uma postura política mais pró-negócios na América Latina pode abrir caminho para reformas há muito necessárias para modernizar e formalizar a região, sustentando dinâmicas de crescimento mais fortes e potencialmente maior estabilidade social. Para mais informações, ver América Latina: de volta ao mapa, de 8 de dezembro de 2025.
Para a própria Venezuela, será crucial conduzir uma das reestruturações de dívida soberana mais complexas da história moderna — comparável à do Iraque em 2003. Entre os principais desafios estão:
Diante desse cenário, os investidores devem agir com extrema cautela, considerando o elevado grau de incerteza política, a probabilidade de uma reestruturação longa e complexa da dívida e a visibilidade limitada sobre a capacidade de pagamento da Venezuela. Além disso, é importante ponderar os custos de oportunidade: com os títulos do Tesouro dos EUA rendendo atualmente entre 3,5% e 4,5%, e uma cesta diversificada de títulos soberanos denominados em dólar oferecendo rendimentos acima de 6,5%, aguardar uma resolução da situação da dívida venezuelana envolve concessões relevantes.
Movimentos recentes nos preços dos títulos venezuelanos reforçam a importância de uma avaliação contínua de riscos e da revisão dos portfólios.

