Imagen de Estagflação, reflação, pouso suave, queda brusca?

Toda crise gera oportunidades no mercado financeiro, e essa não vai ser diferente. No caso dos ativos brasileiros, as consequências de curto prazo do cenário global trazem oportunidades importantes e que não podem ser desprezadas pelos investidores locais. A maior e mais importante oportunidade está nos mercados de renda fixa.

Investindo no Brasil

A maior e mais importante oportunidade está nos mercados de renda fixa

A patada do urso

O touro talvez seja o animal mais identificado com o mercado financeiro. Símbolo do mercado de alta, o touro é adorado por investidores pelo mundo afora, afinal de contas, o objetivo de todo investimento é obter um retorno financeiro que compense o risco tomado.

Ele foi escolhido como símbolo do mercado de alta por atacar de baixo pra cima, com seus chifres poderosos. Intuitivamente, a grande maioria dos investidores fazem apostas acreditando no mercado de alta, e poucos apostam no mercado de baixa, algo mais comum entre os profissionais do mercado.

Quem desiste de consumir o seu patrimônio, o faz porque espera por ter mais patrimônio após um determinado período. Renunciando a liquidez, a recompensa vem depois da valorização, que pode vir em decorrência de vários fatores como taxas de juros, crescimento de lucros, dividendos ou simples valorização de preço pela lei da oferta e da demanda.

Acontece que o touro não vive sozinho nos mercados. Ele convive com a sombra de seu adversário e concorrente, o urso. Escolhido como símbolo do mercado de baixa, por atacar de cima para baixo com suas garras aterrorizantes, o urso é o grande temor dos investidores. Ele geralmente é mais agressivo que o touro, provocando movimentos mais rápidos e profundos nos preços do que o touro, que costuma reinar por mais tempo e com oscilações menores.

Mercados de baixa costumam acontecer em movimentos de alta de juros, inflação persistente ou recessão. No atual momento, o mundo já convive com os dois primeiros, e o terceiro é uma probabilidade cada vez maior de acontecer.

Com o mercado de trabalho superaquecido nos EUA, a guerra na Ucrânia e a política de Covid-zero na China, todos os principais blocos econômicos do mundo padecem de um cenário onde a inflação é alta e persistente, e o crescimento tende a ser menor em decorrência dos lockdowns, do preço da energia e dos alimentos, e das taxas de juros.

Enquanto o processo para resolver os problemas citados é longo, os mercados antecipam o impacto do crescimento menor nos preços dos ativos. Menos crescimento do PIB global equivale a menos crescimento de lucros nas empresas listadas na bolsa, e a alta dos juros impacta negativamente os preços dos títulos de renda fixa, portanto a grande maioria dos ativos neste ano sofreram desvalorização. É a patada do urso.

Impactos no Brasil

Enquanto o PIB projeta um crescimento acima de 1%, o desemprego deve cair abaixo de 10% antes do final do ano, e a arrecadação de impostos tem garantido bons resultados fiscais ao governo, tanto a nível federal quanto no estadual.

O principal impacto negativo, assim como no resto do mundo, veio na inflação, que chegou a mais de 12% nos últimos 12 meses, provocando um dos maiores movimentos de alta de juros da história do Brasil. A taxa Selic, que estava em 2% até marco de 2021, deve ir a 13,75% em agosto de 2022, e permanecer nesse patamar por um período prolongado.

A médio prazo, o país pode se beneficiar dos acontecimentos recentes, se souber aproveitar as oportunidades. Primeiramente, é importante observar que o mercado de petróleo vai continuar apertado por muito tempo ainda, uma vez que os investimentos necessários para o crescimento da oferta ficaram muito aquém do que seria razoável, uma vez que os grandes produtores priorizaram o investimento em energia verde, esperando uma queda na demanda do combustível fóssil, que não aconteceu no ritmo previsto.

O Brasil é superavitário em petróleo hoje, e tende a ser cada vez mais nos próximos anos. Com isso, tende a ter uma balança comercial mais superavitária, e uma arrecadação de impostos e royalties que pode dar um equilíbrio fiscal melhor ao país, desde que a responsabilidade fiscal continue nos próximos governos.

Além disso, existe uma tendencia de desglobalização no mundo, e os países desenvolvidos ocidentais procurarão parceiros comerciais mais próximos e mais confiáveis do que no passado. O Brasil tem grandes laços comerciais com todos os grandes blocos econômicos, EUA, Europa e China, e pode capitalizar com essa tendencia através de acordos comerciais e atração de investimento estrangeiro direto. Os países desenvolvidos precisarão diversificar sua cadeia de suprimentos e de commodities, e o Brasil pode se beneficiar desse movimento.

Finalmente a crescente relevância de fatores de sustentabilidade (meio ambiente, socias e de governança), pode colocar o foco em países em desenvolvimento, por ser um canal de atração de investimentos estrangeiros. O Brasil tem grandes oportunidades nesse campo, desde que melhore sua imagem e assuma a liderança principalmente em questões ligadas ao meio ambiente.

As oportunidades de mercado

Toda crise gera oportunidades no mercado financeiro, e essa não vai ser diferente. No caso dos ativos brasileiros, as consequências de curto prazo do cenário global trazem oportunidades importantes e que não podem ser desprezadas pelos investidores locais.

A maior e mais importante oportunidade está nos mercados de renda fixa. Ao mesmo tempo em que o risco fiscal melhorou no Brasil, por conta de uma arrecadação maior e forte contingenciamento de despesas por conta da lei do teto de gastos, os retornos prospectivos dos títulos de renda fixa aumentaram para níveis muito atraentes, uma vez que o banco central aumentou as taxas de juros para patamares muito acima da inflação.

Acreditamos que o patamar final das taxas de juros, 13,75% ao ano, é uma grande oportunidade para “travar” taxas pré-fixadas para os próximos anos. Entendemos que o banco central deve voltar a baixar essas taxas para patamares próximos a 9% em 2023, e para algo como 7% a médio prazo. Desse modo, comprar títulos pré-fixados com vencimentos de dois anos nesse momento é uma grande oportunidade na nossa visão. As premissas por trás dessa recomendação são que a inflação já atingiu seu pico no Brasil, e deve cair em direção a 5% ao longo de 2023, e o BC vai acompanhar essa queda cortando os juros.

Também vemos uma grande oportunidade nos títulos indexados à inflação. Nesse caso, a vantagem para o investidor é garantir retornos que garantem um ganho acima de inflação por um período prolongado. Títulos com risco soberano, emitidos pelo tesouro nacional, pagam juros fixos de 5.7% mais o IPCA do período, para prazos acima de 6 anos.

Títulos corporativos pagam retornos semelhantes, com a vantagem de serem isentos de imposto de renda em muitos casos. Investidores devem montar um portfólio diversificado de títulos indexados à inflação nesse momento, com objetivo de garantir uma remuneração acima da inflação por um período prolongado, e ao mesmo tempo se proteger caso a inflação permaneça alta.

Títulos pós-fixados também são uma oportunidade nesse momento, e são nossos preferidos, uma vez que eles possuem risco muito baixo, garantem uma remuneração acima da inflação nos próximos 18 meses, e tem bastante liquidez. Esses títulos devem compor a carteira de todos os perfis de risco, mas principalmente de investidores mais conservadores.

Acreditamos que os melhores instrumentos pós fixados são os títulos incentivados emitidos por instituições financeiras. Com relação aos mercados de risco, sugerimos manter uma alocação baixa, porém não zerar totalmente a exposição a eles, que podem prover uma rentabilidade diferenciada quando o cenário melhorar.

Nesse momento evitamos principalmente os ativos globais, que devem permanecer voláteis no curto prazo, e podem oferecer melhores oportunidade de entrada mais a frente, quando a perspectiva de cenário estiver mais clara. Após o aumento de 50 pontos básicos nas taxas em maio, o Federal Reserve promoveu uma elevação de 75 bps em junho, o primeiro desse porte desde 1994.

O Fed caracterizou como “incondicional” seu compromisso com o restabelecimento da estabilidade dos preços. Em maio, a inflação nos preços ao consumidor nos EUA reacelerou para 8,6% anuais, frustrando a esperança de que ela tivesse atingido o pico de 8,5% em março. O desafio para os bancos centrais é que as pressões inflacionárias atuais se situam principalmente em áreas da economia que estão fora de seu controle. Para compensar tais pressões, os bancos centrais precisarão provocar desinflação ou deflação nas áreas da economia que podem controlar, reduzindo a demanda nos setores sensíveis às taxas de juros.

Dados econômicos recentes sugerem ventos contrários para o crescimento econômico e dos lucros em todo o mundo. Nesse ínterim, a política chinesa de tolerância zero à COVID-19 lança uma sombra constante sobre as cadeias de suprimentos, enquanto sua disposição de impor quarentenas abrangentes para evitar surtos e o risco geopolítico contribuem para as preocupações com a inflação e o crescimento.

Com relação a bolsa, recomendamos fortemente não reduzir a exposição nesse momento, uma vez que os preços estão bastante atraentes nos patamares atuais. Entretanto, o cenário eleitoral e a falta de perspectiva de reformas nos deixa céticos com relação a uma reação da bolsa nos próximos meses. Acreditamos que a bolsa deva apresentar alta correlação aos mercados internacionais nesse momento, portanto deve permanecer sem tendencia ou até mesmo em tendencia de baixa por mais algum tempo.

Por fim, mantemos nossa recomendação de alocação em fundos multimercados e imobiliários, bem como investimentos alternativos (private equity e venture capital). Acreditamos que, nesse momento de grandes incertezas, a diversificação é crucial para diluir os riscos dos portfolios, bem como garantir retornos acima da inflação a médio prazo.

Conecte-se a LatAm Access+ para insights exclusivos

Registre-se na nossa comunidade acessar insights exclusivos e ficar à frente das tendências e oportunidades que darão forma ao futuro do seu patrimônio.


Explore mais

UBS House View - Estagflação, reflação, pouso suave, queda brusca?

Há vários possíveis resultados para os mercados, e a única certeza próxima é que o caminho até o final do ano será volátil

Own Your Worth 2022: Mulheres com propósito

Quem são as novas mulheres investidoras? Os investimentos em ESG são altamente atraentes.

Aproveite a volatilidade! Descubra ideias de investimento

Registre-se em LatAm Access+ para acessar ideias de investimento sobre como volatilidade a seu favor.