O próximo grande risco

A inflação, após muitos meses reinado, transferiu o posto de maior vilão dos mercados para seu um novo e não menos temido risco, o de recessão. Na nossa visão, o Brasil está bem-preparado para enfrentar os desafios que estão por vir, pois tem diferentes idiossincrasias que podem mitigar os impactos de uma eventual recessão global.

Investindo no Brasil

Em termos de taxas de juros, o Brasil é considerado "à frente da curva" quando comparado a outros bancos centrais

O próximo grande risco

A inflação, após muitos meses reinado, transferiu o posto de maior vilão dos mercados para seu um novo e não menos temido risco, o de recessão.

 

O mecanismo de transmissão de riscos veio através dos preços das commodities. Após um longo período em tendência de alta continuada e intensa, aos poucos os preços voltam a patamares mais parecidos com seus históricos. O movimento de alta nos preços das commodities começou com a pandemia. Mudanças de hábitos, renda disponível para consumo de bens em geral, e o rompimento de cadeias de suprimento globais foram as causas iniciais para a valorização dos preços.

 

Os monstruosos estímulos fiscais que incluíram distribuição de dinheiro direto as famílias em várias partes do mundo, somados a taxa de juros zero ou negativa implementada pelos bancos centrais foram o combustível adicional. Quando esse caldo de cultura já estava causando altas de preços generalizadas, o advento da guerra da Ucrânia foi a faísca que faltava para mais uma mudança importante no patamar dos preços de commodities, principalmente no setor de energia e agrícolas. Como se não bastasse, a implementação de lockdowns intermitentes na China ainda impacta as redes de suprimento de terias primas e componentes globais, causando a falta de produtos industrializados e insumos em geral, e, obviamente, mais inflação.

 

Os preços mais altos das commodities têm impacto direto no orçamento familiar, principalmente em se tratando dos preços de comida e combustível, que não são facilmente substituíveis. Desse modo, o consumo foi impactado drasticamente, pois itens que não são essenciais deixaram de ser consumidos para abrir espaço para bens essenciais que precisam continuar no orçamento.

 

A queda no consumo, por sua vez, diminui a demanda por matérias primas, enquanto a oferta se mantém estável, portanto, o efeito final é uma queda nos preços. Certamente essa queda é limitada por desbalanceamentos estruturais em alguns mercados, como o do petróleo e do gás natural, porém, taxas de inflação menores nos próximos meses são inevitáveis.

 

inflação mais alta e persistente disparou um processo de alta de juros pelos bancos centrais ao redor do mundo, o que acelera o desaquecimento da demanda global por bens e serviços.

 

O banco central americano não tem outra alternativa a não ser subir os juros agressivamente para conter o surto inflacionário. Esse processo já pode ser claramente observado no mercado imobiliário americano, onde as taxas de financiamento imobiliário de 30 anos dobraram, de 3% para 6%, para prazos de 30 anos. Naquele mercado, as vendas de casas novas e existentes, bem como o início de novas construções já está em queda expressiva.

 

Como consequência, os indicadores de confiança do empresário e do consumidor mostram queda abrupta, tanto nos EUA quanto na Europa. Esses indicadores têm forte capacidade de previsão dos dados reais de atividade futura, por isso conclui-se que o risco de desaceleração econômica nesse momento esteja bastante alto, com probabilidade de recessão relevante.

 

A todo esse cenário complexo, soma-se ainda o risco de falta de gás na Europa, em decorrência das sanções econômicas impostas a Rússia por conta da guerra. Os países da união europeia já começaram a diminuir o consumo de gás com o objetivo de aumentar os estoques para o inverno, o que certamente vai impactar ainda mais a atividade econômica em todos os países europeus, agravando ainda mais o risco de recessão.

 

Por fim, e não menos importante, o mercado imobiliário chinês tem sofrido com uma onda de falta de pagamentos de financiamento imobiliário, num movimento voluntário e organizado por parte dos mutuários. Isso tem colocado pressão no sistema bancário, provocando uma reação por parte do governo no sentido de proteger o sistema financeiro e as incorporadoras. De todo modo, é importante notar que a política de Covid-zero implementada pelo governo continua pressionando o mercado imobiliário.

 

Inicialmente, houve uma forte queda nas vendas de imóveis, que persiste até hoje, e, nesse momento, uma queda nos pagamentos de hipotecas, o que pode gerar um ciclo vicioso dependendo da resposta das autoridades. Como não existe uma perspectiva de reversão dessa política, que provoca lockdowns pelo pais enquanto novas variantes do vírus se espalham, o risco de um crescimento muito baixo para padrões chineses tem aumentado na margem. Nós esperamos um crescimento de apenas 3% para China esse ano, o que pode não ser suficiente para manter as taxas de desemprego atuais.

 

Como conclusão, os três grandes blocos econômicos do mundo, EUA, China e Europa, estão com risco de recessão crescente. Isso tem implicações importantes na alocação de investimentos.

Impactos no Brasil

A economia brasileira será impactada pela forte desaceleração do mundo por diferentes canais. O canal de transmissão mais evidente é nos preços das exportações. A primeira consequência do aumento das chances de recessão foi a queda nos preços das commodities. Como o Brasil é um grande exportador de petróleo, minério de ferro, soja, milho e outras commodities, os preços mais baixos reduzem o superávit esperado para 2022.

 

O mercado esperava outro superávit recorde da balança comercial, após o recorde de US$ 61 bilhões do ano passado, mas agora as expectativas são de um número semelhante. No entanto, isso não altera o saldo esperado da conta corrente para o Brasil, que esperamos estar perto de 1% de déficit, tanto em 2022 quanto em 2023.

 

O déficit em conta corrente do Brasil é historicamente baixo e facilmente financiado pelo investimento estrangeiro direto. Nos últimos 12 meses, o déficit em conta corrente foi de US$ 24 bilhões, enquanto o investimento estrangeiro direto foi de US$ 51 bilhões, por exemplo.

 

Olhando para frente, vemos o Brasil e o México (não nesta ordem) como os maiores beneficiários na América Latina da nova tendência de "near shoring" e "friend shoring" (fazer comercio com países próximos e amigos) desencadeada pelos últimos desenvolvimentos na arena geopolítica global. Isso poderia melhorar ainda mais as perspectivas futuras do investimento estrangeiro direto.

 

Os preços das commodities são um efeito, mas as quantidades de exportação também podem ser afetadas negativamente pelo menor crescimento global. Este pode ser o caso, especialmente no caso da China, onde a economia está sofrendo com a fraqueza do mercado imobiliário, o que poderia impactar as exportações de minério de ferro. Como consequência da guerra da Ucrânia, o Brasil vem exportando menos petróleo para países da Ásia, já que o petróleo russo está ganhando preferência por preços mais baixos.

 

A menor balança comercial pode impactar o crescimento, mas apenas marginalmente, já que o Brasil é uma economia relativamente fechada e o comércio é pequeno como percentual do PIB (em torno de 30%). A outra consequência foi o custo da dívida dos títulos soberanos e de empresas brasileiras. Em 2021, o risco pais foi de cerca de 200 bps, enquanto agora está mais perto de 300 bps. Embora isso não seja muito relevante para o tesouro nacional, pois hoje a dívida externa é muito baixa, definitivamente impacta a capacidade das empresas de tomar dívida no mercado, o que poder reduzir o volume de “capex” nos próximos meses.

 

Em termos de taxas de juros, o Brasil é considerado "à frente da curva" quando comparado a outros bancos centrais.

 

Como começou o ciclo de altas mais cedo, a taxa de juros brasileira (13,25% agora) já é superior à inflação dos últimos 12 meses (11,40%), e muito acima da taxa neutra em relação às expectativas de inflação de 2023 (5,30%). A taxa de juros final esperada para 2022 é de 13,75%, portanto mais de 8% acima da inflação esperada para o próximo ano, enquanto a taxa de juros neutra de consenso é de cerca de 4%. Isso significa que o país terá um vento contrário no próximo ano sobre a atividade, então o consenso do mercado agora é de apenas 0,5% de crescimento do PIB. A alta taxa de juros e o baixo crescimento do PIB aumentarão a inadimplência, o que pode causar um menor nível de investimento na economia como um todo.

 

No entanto, o Brasil terá um novo governo assumindo em janeiro de 2023. Esperamos que, tanto no caso da reeleição quanto no caso de uma vitória da oposição, um pacote fiscal estimativo provavelmente será proposto e aprovado pelo Congresso. Esse estímulo fiscal de alguma forma ajudará o país a enfrentar os desafios do próximo ano, preparando para um cenário "após desaceleração" em 2024.

 

Resumindo, o Brasil está bem-preparado para enfrentar os desafios que estão por vir, pois tem diferentes idiossincrasias que podem mitigar os impactos de uma eventual recessão global.

 

Este conteúdo é um produto de UBS Chief Investment Office (CIO).

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